Chicareli Psicologia e Psiquiatria
Equipe especializada com a Coordenação de Márcia Chicareli Costa - Mestre em Psicologia da Saúde


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♦ A difícil arte de começar
Márcia Chicareli Costa*


Quando falamos da formação do psicólogo devemos, como é dito na graduação, despir-nos de nós mesmos e entrar em contato com o contexto complexo que isso possa representar.
Na universidade, poucas chances são dadas para uma formação mais completa, com conteúdos mais profundos e o que acabamos por viver na formação são "pinceladas" do que é a psicologia.

Falta-nos embasamento teórico, mas, pior que isso, falta-nos a prática. O bacharelado nos compromete com textos e teorias de tal forma que não temos tempo disponível para pesquisar e aprofundar nenhum contexto. Quando chegamos à clínica e então, sim, estamos de frente com a prática, nos deparamos com supervisores com visões diferentes daquela que se foi formando dentro de cada um de nós. Instala-se o conflito. "Vou pelo que sei, pelo que aprendi, pelo que formei de conhecimento, ou pelo supervisor que tem a prática apurada por sua vivência?"

Se cada um de nós tivesse em mente que nossa formação como psicólogo começa quando escolhemos a profissão, os caminhos seriam encurtados e, ao chegar ao atendimento clínico, no quinto ano, já teríamos prestado muitos serviços sociais e voluntários para conhecer a realidade dos fatos na vida prática. Penso que, presos aos textos e às cobranças de trabalho em cada disciplina, saímos intoxicados pelas informações. Ao assumir o papel profissional e na hora da entrevista inicial com o primeiro paciente, eis que surge a grande ansiedade. Levando em conta que a ansiedade é o vazio entre o agora e o depois, manejar uma situação nova sem nunca antes tê-la vivido torna-se um grande risco para os dois lados, tanto para o paciente quanto para o psicoterapeuta em formação.

Devemos mudar os conceitos em relação à formação do psicólogo e isso deverá partir de cada um de nós. O que a academia nos oferece é pouco para que tenhamos a segurança e o feeling necessários para escutar o outro, sentir "como se" sente o outro, saber o outro e, mais que tudo isso, saber-nos.

Teríamos que ter a consciência de que, para uma boa formação, precisaríamos de uma boa e saudável terapia pessoal, que caminhasse lado a lado com o curso de graduação e se estendesse até quando fosse necessário.

Sendo assim, quando o profissional ainda em formação chega à clínica-escola, ele teria uma base, um modelo, uma vivência interessante, e isso poderia ser um ponto de partida.
Abaixo a arrogância. Devemos nos curvar ao aprendizado contínuo e saber que nossa formação é um processo que pode ser completado a partir de nós mesmos e do nosso envolvimento com a formação.

Tendo claro o que se deseja, sabendo-se que cada atendimento será uma caixa de Pandora, cheio de surpresas, e que cada ser é único temos mais disponibilidade interna para ouvir o que o outro nos traz, com clareza e sem receios tolos adquiridos numa formação descompromissada.

O compromisso deve surgir de cada pessoa que se propõe a compreender o outro ser humano. A responsabilidade é grande. Contam-nos como são as técnicas e em que abordagem cada uma delas se encaixa. Mas quem nos dá respaldo, após termos lido tantos textos e livros, feito tantos trabalhos e seminários?

Vou buscar na Gestalt terapia um pouco mais de força para continuar escrevendo, afinal somos um todo e esse todo tem que ser visto. A relação que estabelecemos com o paciente, a forma de vincular a relação e o preparo, inclusive para as frustrações, são requisitos necessários e vêm também de uma boa formação pessoal. Se corpo e mente são um só e se somos seres biopsicossociais, não podemos perder de vista o todo no qual está inserido nosso paciente. Poder ouvi-lo e descortinar sua vivência efetivamente, conhecendo seus conflitos, deve acontecer além das paredes do setting terapêutico e ajudar a compreender de onde vem a queixa, para além de dentro dele. Se somos reflexo do que vivemos, ter um olhar amplo é cabível e lógico. Soltem as amarras!

A cultura dita quem somos. Isso vem sendo observado pelos futuros profissionais? Ou continuamos caminhando pelas trevas do que não sabemos nem nomear? É importante deixar claro que o aprendizado deve ser constante em nossa área e que, para tanto, a dedicação é fundamental. Comece aprendendo quem é você. Afinal, formar-se psicólogo é uma tarefa árdua e para poucos. Comprometa-se consigo mesmo antes de se comprometer alguém em sua tentativa aventureira de ajudar sem nunca ter se ajudado.

Seja qual for a abordagem que lhe caiba, independentemente de você aceitar ou não o que acabou de ler (salvo qualquer semelhança que deve ter encontrado dentro de você), reavalie, repense, reconstrua, refaça o que você pretende para sua formação em psicoterapeuta. Não se apóie apenas nos livros, pois quando atendemos não usamos manuais. Perceba-se para perceber o outro que busca sua ajuda.

Márcia Chicareli Costa é Psicóloga, Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia da Saúde com o tema Aspectos Psicodinâmicos de Mães de Crianças Abrigadas, especialização em Família, Infância e Juventude, Professora Universitária e Supervisora Clínica.

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